Pairando á beira de um córrego, um pedaço de plástico para embalar gomas de mascar estava.
Cor vermelho tomate, escrito com palavras em inglês "Intense Strawberry" em branco forte, grifado de linhas pretas como contorno do nome chamativo apenas mais um petróleo saboroso - coisa que muita gente não sabe-, na linha de baixo: "Hot Hot Pepper" em verde grama fosforescente de doer os olhos até mesmo de longe, faltava um pedaço da embalagem de tamanho médio, limpa e leve. Na ponta esquerda o resto de papel alumínio se encontrava em bom estado, refletindo o marrom escuro das bordas do córrego, que chorava lágrimas ácidas no desvio d'água. Se olhasse em volta, para o córrego aquilo não era novidade: havia milhares boiando na água, e centenas afundando. Não que um milhão de cidadãos estivessem jogando seus Intense Strawberry Hot Hot Pepper, juntas, ao mesmo tempo. Mas a quantidade que voava sob os céus era lamentável.
Não conseguiria abrir meus lábios para espantar-me com aquilo, talvez um dos Intense Strawberry entrasse em meus lábios.
Nunca gostei muito de chiclete.
Apoiada no beiral de uma ponte velha, com traços de madeira antiga corroída pelo tempo, espaço e os indispensáveis cupins. Beiral velho de pedra, cheio de irregularidades, buracos pequenos, faltando partes, pontas. Beiral velho de pedra cheio de sujeira escura, que deixava as mangas de meu casaco um tom mais escuras. Beiral velho de pedra que o domando pedaço nenhum cairia enquanto me apoiava, e me deixava sentir o quão ruim estava aquele canto que um dia poderia ter sido nobre.
O cheiro do córrego esverdeado era horrível, tanto peixe quanto carniça estavam juntos no mesmo riacho. Sem falar no esgoto, fezes se depositavam no fundo, e todo tipo de sujeira se deixava por piorar a situação. Cheio de bactérias e ainda sim, contendo alguns cartilaginosos, corajosos a continuar sobrevivendo nessas condições.
O céu branco de neblina. Eram seis da manhã, e meus dedos congelavam -esqueci minhas luvas pela décima terceira vez consecutiva- olhei pra cima e nuvens negras se formavam sob todo território. Tão negras que junto ao céu cinza ficavam mais circulares e cada vez maiores, dando formas a si mesmas e expandindo aquilo que futuramente chamaríamos de tempestade. Uma grande tempestade. Não uma qualquer como em todos os dias. Mas daquela que quando começam não param, não param nunca, e mesmo tão cedo, não deixariam de vir.
Desapoiando desajeitadamente do beiral, tirei a poeira das mangas e continuei a andar no frio. Atravessar a velha ponte era incomum, quase ninguém a utilizava, estava velha demais. E provavelmente cansada de tantos pés e tantas cargas a passar e não a ajudar em mais nada.
Depois de caminhar uns poucos doze metros da ponte, lá estava Clarie Gouie. " Oh Clarie Gouie a jovem de cabelos vermelhos, tão linda..." Estudo com Clarie há um ano e nunca deixamos de discordar. Aliás, a sinceridade é um forte em nossa relação.
"Oscar, oi... Que tempo mais placeboso, o que está ouvindo?"
"O de sempre", mas na verdade rapidamente troquei a música e assim não seria mais Dodos, e sim a adorável Kimya Dawson.
"Ah ótimo, mais um daqueles dias que acordamos cedo demais sem objetivo nenhum... Talvez essa seja a graça de todas as nossas manhãs. Oscar?"
"Desculpe, estou ouvindo música. O córrego está muito sujo"
Clarie sempre fazia o mesmo olhar fastidioso quando eu resolvia defender causas ambientais. Mas, mesmo assim, nunca deixei de insistir.
"Desista, você não é o Clear Rivers Man" risos de ambas, e aquele tom de ironia em sua voz, como sempre.
Caminhando ao longo da rua, poderíamos dividir o mesmo fone, e desgrudar a cada momento que talvez abaixássemos para pegar uma flor, ou uma de nós desse uma pirueta e deixasse o fone cair e se enrolar todo no asfalto úmido.
"Clarie... Já percebeu que todo período sem aulas de nada nos serve?"
"Já percebeu que faz muito tempo que não conseguimos marcar nada com Ellen?" a mãe de Ellen era um tormento, perseguia a todos trancafiava sua filha nos confins de seu apartamento, porque a cada dez minutos eles deveriam ir até a casa da avó ou até mesmo as festas de alguns amigos. Porém, na maioria das vezes não nos encontrávamos. Era quase uma rotina. Ela sumia.
E sumiu.