Meu último dia com Sónia
Enviado por mazive, qui, 03/12/2009 - 10:41
Todos dias — sem falhar — visito o quarto dos fundos da casa. Lá jaz Sónia, uma garota que vi crescer bonita e sorridente, mas que agora encontra-se nas últimas, vitimada por uma doença que afinal (soube-se tardiamente) é perfeitamente curável.
Quem a alojou foi dona Marta, alegadamente para compensar os cinco anos que Sónia que lhe serviu, e (ainda que jurasse que não) livrar-se de eventuais remorsos. Mas a velha morreu pouco tempo depois, e eu, seu sobrinho e único parente vivo, herdei a casa e a missão de olhar por Sónia até a última hora; a hora que seus inúmeros amigos desistiram de esperar logo que souberam que chegaria, irreversivelmente.
Hoje não irei. Garanto que não é por causa dos mil obrigadas que ela me diz por causa da minha ajuda; nem é por causa das suas lamentações por não me ter cedido enquanto saudável, embora (jura-me ela chorando) eu merecesse. Não vou, sim, por causa do homem que apareceu hoje pela manhã exigindo ver Sónia. Não o impedi por causa do tom arrogante da sua voz, reforçado por aqueles músculos ridicularmente enormes. Ainda assim fiquei atrás da porta, usando o ouvido junto a porta. Mas como eles falavam aos sussurros, não captava quase nada. Então tive a ideia de, usando a minha chave, livrar-me da chave de Sónia para poder matar a minha curiosidade através de um outro sentido, a visão. Quando a chave caiu do lado deles, o homem, visivelmente irritado, correu em direcção à porta. Mas antes de chegar, Sónia o interrompeu dizendo: “Não se preocupe. A chave caiu por si... Aqui é tudo tão precário e...”
Foi então que passei a ver e ouvir quase tudo que se passava lá dentro. Conversavam muito próximos um do outro. Não tive dúvidas de que eram muito íntimos. Mas quando, embaraçado e prestes a sofrer um ataque de ciúmes, preparava-me para me retirar, o homem saltou para o pescoço de Sónia gritando: “Foi você que me infectou. Foi você!” A dor intensa na coluna não me permitiu agir imediatamente; nem mesmo quando o homem largou eu pude me mover. Aqueles longos três minutos de impotência pioraram ainda mais a minha dor. Inexplicavelmente, sai daquela posição apenas quando o homem — talvez porque Sónia não oferecia mais resistência, fazendo-o pensar que ela falecera — resolveu retirar-se.
Ao abrir a porta, vendo-me com uma mão na coluna e outra tentando esconder a cara, o homem deu-me um soco potente. Agora estou estatelado no corredor, exactamente no lugar para onde aquele golpe me transportou. Pela porta entreaberta vejo-a com as mãos no pescoço. Há onze minutos que tento ligar para alguém. Não sei se eles me vão levar a sério. É que o soco que levei tornou a minha voz nasal. Espero que eles não me achem mais um desses desocupados que ligam apenas para importunar os outros.

qui, 03/12/2009 - 18:21
Mais um texto intrigante que faz com que o leitor, encontre respostas as situações apresentadas. Não queria estar no lugar deste narrador. Muito bom! Parabéns