O último olhar da aeromoça desesperou-me. Ela desfizera-se do sorriso e da excessiva cordialidade com que repetira durante toda viagem: “Sente-se bem? Precisa de alguma coisa?” E, quando vi aqueles cinco agentes em minha direcção, tive logo a certeza de que ela notara o que, com tanto esforço, procurei ocultar ao logo do vôo: passei as quinze horas que separam São Paulo e Maputo irrquieta, sem ingerir nada, e sem ir ao toilet.

Levaram-me à uma sala, cujo caminho desconheço por causa dos olhares e murmúrios que me condenavam. Lá tive de esperar umas três horas. Tudo porque a senhora que trataria de mim não estava. Quando a senhora chegou, pude finalmente vomitar a meia dúzia de ampolas brancas que trazia no estómago e livrar-me também da outra meia dúzia que havia guardado na vagina.

Dali fui, praticamente, directamente à cadeia. Onde Só seis meses depois (hoje) recebi a primeira visita. Adalberto, o meu ex-patrão, foi o primeiro a lembrar-se de mim.

“...tive que te denunciar para que a outra transportadora conseguisse chegar com o produto. Mas não te preocupes, na próxima vez não vou entregar a ti, será a Sónia, a simpática aeromoça.” Disse o canalha.