Dois Mundos
Em uma rua transversal, ela observava a vitrina de uma loja de roupas. Seus pés doíam, suas mãos sujas de tinta e os olhos pesavam de sono. A chuva fina não dava trégua.
Sempre no mesmo horário, ao cair da tarde, lá pelas cinco, ela pára nas vitrinas e observa as pessoas com aquele olhar interrogativo.
Amigos não tinha. Morava com duas colegas na pensão do Seu Novaes, Glória e Suzana, vendedoras de doces. Ela era doméstica e cuidava dos filhos de um tal doutor Arantes de Vasconcellos. Vivia feliz, mas naquele dia em frente à loja, mal pôde conter as lágrimas.
O vidro espesso refletia o frenesi da cidade - os carros subiam e desciam a ladeira; as buzinas; os transeuntes a passos largos - para ela que vivera no meio do nada, no sertão da Bahia, aquilo era o Caos.
Lembrava-se, estranhamente, do seu tempo de menina. Os homens no roçado, os irmãos brincando no terreiro, os caminhões com dezenas de pessoas na carroceria. Ela trabalhava com a mãe e mais uma tia numa casa de farinha, a descascar mandioca. Ia para a escola, mas era longe, muito longe. Aprendera a assinar o nome e só.
Também usava calças e botas, um chapéu para proteger-se do sol impiedoso. Carregava latas d’água na cabeça. O sertão era o seu mundo. Deus o sabia.
Os olhos, o cabelo, a cor – tudo nela é encanto. Um encanto que oculta a saudade. Saudade de sua terra, de sua gente.
No dia em que saíra de casa, retirante fugindo da desolação, falou à sua mãe: “Agora a luta vai começar. Saio do sertão, mas é pra um dia voltar.”
Maria do Carmo? Alguém colocou a mão sobre seu ombro. Era Glória que já voltava do trabalho. E elas desceram a ladeira. Era noite.