Eram 10 horas de uma manhã diluviana e eu estava ao telefone falando com uma pessoa do Paraná, para quem eu deveria enviar uma encomenda pelos Correios. Desculpava-me por não poder enviá-la naquele dia. Estávamos sob um dilúvio. A pessoa do outro lado da linha soltou uma gargalhada e perguntou: Aí no Ceará? O jeito foi rir também, porque minha interlocutora tinha toda a razão em surpreender-se. Um dilúvio no Ceará, em pleno 31 de maio!? Era inacreditável!
Mas foi o que aconteceu, e o leitor aí não me deixa mentir. Foi uma chuva que caiu de surpresa. Começou pela madrugada – mas só em alguns bairros – e continuou por toda a manhã, ora mais forte, ora mais fraca. E aconteceu o que sempre acontece – aqui, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Piauí, em Santa Catarina e em mais outros lugares deste Brasil imenso e tão despreparado para enfrentar as peças que a natureza nos prega, principalmente quando ela resolve se manifestar pela força da água. E foram rios e lagoas transbordando e invadindo as casas circunvizinhas, cujos proprietários perderam tudo que amealharam ao longo da vida; e ruas alagadas; e carros submersos; e asfalto destruído; e engarrafamentos quilométricos; e desmoronamentos, e muito mais que se possa imaginar. É, no Ceará tem disso, sim, também.
Lá pelas dez e meia, minha empregada recebeu um telefonema da irmã: sua casa, a de sua mãe e a de todos os vizinhos haviam sido invadidas pelas águas de um rio que passa nas imediações. A água subiu em torno de um metro, e nada se podia fazer. Eles perderam tudo: geladeira, fogão, cama, guarda-roupa. Hoje, ela chegou para trabalhar já passando das onze horas. E, sem nenhum desespero, falou-me da situação. Estava conformada. Perdera tudo, meu Deus! e estava conformada.
Não sei de onde vem essa conformação que se manifesta de maneira mais extrema nas pessoas mais simples. Conformação ou acomodação? E surgem os velhos e conhecidos refrões: Foi a vontade de Deus! Pior poderia ter sido! Ainda bem que está todo mundo vivo! Vão-se os anéis e fiquem os dedos. E Deus acaba assumindo a responsabilidade pela irresponsabilidade dos homens.
Nós, os mais esclarecidos (seremos?), sabemos que, quando um canal transborda; uma cratera se abre no meio do asfalto, tragando um ou dois carros; barragens desmoronam; casas desabam ao peso da chuva, sabemos que os responsáveis são os homens. Sabemos que essas tragédias – grandes ou pequenas – são consequências da falta de planejamento; do pouco investimento na infraestrutura; da ocupação irresponsável do solo, enfim, consequências da má administração de governantes corruptos e destituídos de sensibilidade. Vamos deixar Deus fora dessas.
Mas o vezo de jogar sobre os costados da divindade a responsabilidade de tudo de ruim que acontece, o que, de certa forma, livra a cara dos homens, é ancestral. E contra ele nada se pode fazer, a não ser que se eduque o povo, para que ele mesmo tenha a capacidade de assumir sua própria responsabilidade e apontar a dos outros nas ocasiões de tragédia. Mas, principalmente, para que ele assuma uma atitude preventiva, exigindo a solução dos problemas urbanos. A fim de que ele tenha o discernimento para saber até onde vai a ação da natureza e onde começa a responsabilidade dos homens. Um vulcão entrar em erupção é culpa da natureza, mas a morte de centenas de pessoas que viviam nas fraldas do vulcão já é responsabilidade humana.
Deus acaba sendo o responsável indireto, aqui no Ceará, por exemplo, pela tragédia da seca e pelo descalabro das enchentes. Basta que analisemos os versos de Súplica Cearense:
Oh! Deus, perdoe este pobre coitado,
Que de joelhos rezou um bocado,
Pedindo pra chuva cair sem parar.
Oh! Deus, será que o Senhor se zangou
E só por isso o sol se arretirou,
Fazendo cair toda chuva que há.
Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho,
Pedi pra chover, mas chover de mansinho,
Pra ver se nascia uma planta no chão.
Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração.
Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar.
Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno,
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno,
Que sempre queimou o meu Ceará.
Esses belos e comoventes versos revelam de maneira exemplar a relação entre o homem, a natureza e a divindade, na perspectiva do povo do Nordeste brasileiro. O homem é presa da natureza e da divindade; e a natureza, por sua vez, é o instrumento de Deus, para premiar ou castigar o homem. Sendo escravo da divindade – que, para o povo, ainda é aquele Deus vingativo do Judaísmo primitivo, e não o Deus de amor e compaixão do Cristianismo –, o homem precisa fazer tudo para agradar-lhe, precisa andar direito, para não despertar a sua fúria. Uma fúria que se manifestou no dilúvio e na destruição de Sodoma e Gomorra, por exemplo.
Na canção popular, a mera súplica do homem para mudar o que já estava determinado por Deus pode gerar a ira divina. E isso fica muito claro nos primeiros versos: como o nordestino rezou pedindo para o sol desaparecer e vir a chuva em seu lugar, Deus manifestou seu furor, fazendo cair toda a chuva que há.
Diante da sanha divina, o homem resolve assumir a culpa. Deus, aquele que é, o princípio e o fim, não pode ser culpado de nada. O mal que acontece no mundo acontece por culpa do homem. Deus lança seu raio vingador para punir uma má ação do homem: um pedido inoportuno, uma súplica errada, uma blasfêmia, uma exigência audaciosa, ou qualquer outra coisa que possa ser ofensiva aos olhos da Divindade. E assim, assumindo sua parcela de culpa nos males que o afligem, o homem tende a conformar-se. Se a culpa é dele, não há por que revoltar-se.
Bem, para os marxistas, a religião, sendo o ópio do povo, é culpada pelo conformismo do homem. Para os crentes, a religião é um ponto de apoio, é um freio para os destemperos humanos. De qualquer maneira, enquanto o homem não se educar e aprender a enxergar a verdadeira dimensão do mundo, de Deus e dele mesmo, a religião é uma muleta que o impede de cair no despenhadeiro do desespero.
A enchente, a seca, a erupção de um vulcão, o abalo sísmico, o tornado, a tempestade e outras manifestações destruidoras da natureza, em princípio, não existem para castigar o homem. Nem Deus, se existir, deve perder seu precioso tempo com essas coisitas de interesse humano. O que faz a natureza parecer instrumento da vingança divina é a ação irresponsável do homem e seu próprio sentimento de culpa quando percebe que suas relações com seus semelhantes e com a natureza não são nem um pouco louváveis.
sab, 05/06/2010 - 12:07
Cara Vicência, ainda por certo veremos muita coisa. Penso que nós estamos vivendo a época em que a natueza passa a reclamar dos maus tratos que sofreu com o desenvolvimento desenfreado.
Muito significativa sua crônica.
Abraço da República dos Autores