O bairro, atravez dos seus cidadãos mais atentos, viu com tristeza a alegria com que dona Joana recebeu as chaves da sua nova casa. Seguramente não sabia de nenhuma das estórias sobre a mesma. Não devia saber, por exemplo, que a cor viva das paredes afrouxaria em breve, pois a casa estava irreversivelmente condenada a ser sombria. Mas, sobretudo, não devia saber que a casa era conhecida por molestar e envelhecer os seus ocupantes, pois de lá se saia, se fosse o caso, directamente para o cemitério.
Muita gente quis alertá-la. A maioria mais para se livrar de eventuais remorsos, e não propriamente por solidariedade. Juntavam-se e passavam horas a fio no portão de dona Joana. Mas ela respondia à nenhum dos chamados. Ouvia apenas a buzina impaciente de uma viatura luxuosa que estacionava nas cercanias da sua casa. quando saía — sempre mais bonita que nas vezes anteriores — não via populaça. Talvez por causa da pressa. Quando regressava (à meia noite) também não via os bons samaritanos, agora provavelmente por causa do cansaço.
O automobilista foi rapidamente identificado. Tratava-se de uma celebridade (alguém o espreitou atravez dos vidros escuros). E porque o homem era conhecido pelo seu invariável mau humor, ninguém ousou abordar dona Joana enquanto estivesse na companhia dele.
Desistiram de dar o aviso e passaram a investigar (agora com mais entusiasmo) o que fazia aquela celebridade frequentar, todos os dias, sem falta, um bairro degradado. E logo surgiu a informação de que o homem era amante de dona Joana, pois só assim se justificava a boa vida que levava sem trabalhar; só assim se justificava o total isolamento de dona Joana, como se algum dia não viesse a precisar dos vizinhos.
Mas quando se estava prestes a encontrar as provas concretas da conjectura (alguém se dispusera a seguir o casal e tirar fotografias comprometedoras), o magnata deixou de estacionar nas cercanias da casa de dona Joana. Ela também desapareceu. Ela perdera o único motivo que a fazia sair de casa.
Tornaram a vê-la muitas semanas depois. “Cose-se roupa”, dizia uma placa pendurada no portão. Foi por ela que o bairro soube que a casa continuava habitada. Mas ninguém ousou bater requisitar tais serviços. É que, conforme a previsão, o azul das paredes empalidecera, e as árvores espalhadas pelo quintal haviam crescido a ponto de ofuscar a casa. Dona Joana passava o tempo preparando a máquina de coser, as linhas, as agulhas e alguns tecidos pálidos.
Os primeiros clientes lhe bateram a porta outras semanas. Uns para rir-se da desgraça, outros porque haviam ficado sensibilizados com olhar triste que dona Joana fazia. Deprimia a qualquer um ver dona Joana a divertir-se com o bater da placa publicitária nos ferros enferrujados do portão.
No entanto, esses clientes não iam remendar roupa ou encomendar alguma moda, iam a procura de notícias (o descalabro de dona Joana havia sido repentino, invulgar e irreversível).
Demoravam-se a explicar o serviço que pretendiam, e nunca tinha urgência em levantar a roupa. “Não te preocupes, dona Joana. Posso vir amanha”, diziam sempre que a preocupação de dona Joana em concluir o trabalho no tempo previamente combinado. Assim tinham mais oportunidades de colher alguma informação útil.
Mas passadas algumas semanas, o negócio deixou de prosperar. Os poucos clientes se cansaram da antipatia de dona Joana. Coisa que, sabiam, não era propositada. Viam o esforço que fazia para sorrir, o esforço para rir de piadas sem graça e outro esforço que fazia para contar piadas com alguma graça. Tudo fazia para se desfazer daquela melancolia contagiante. Simplesmente não sabiam lidar com quem quer que fosse.
Na verdade, a crise devia-se ao facto de os fregueses haviam se fartado de rasgar roupa não importante ou resgatar alguma peça há muito descartada. E não danificavam a roupa do corpo apenas porque dona Joana era péssima costureira. Dizia-se até que nunca aprendera o oficio. Cosia apenas para não passar fome.
O período de seca passou porque apareceu um dado novo. Um jovem, que certamente era uns dez ou doze anos mais novo que ela passou a aconpanhá-la na varanda. Ficava sentado numa poltrona, colocada bem ao lado da máquina de coser. Soube-se depois que era amante seu. Aliás, fora por causa do jovem que o magnata a abandonara.
Os antigos clientes voltaram a rasgar roupa não importante e a resgatar peças há muito descartadas. O negócio prosperou a ponto de permitir-lhes pintar as paredes da sala. Quem pintou foi o jovem. Os fregueses o viram cambalear com um pincel durante uma semana. Ele parecia mesmo doente. E dali surgiu uma nova explicação para a presença do jovem naquela casa decadente. Certamente dona Joana lhe teria passado alguma doença ou lhe teria causado um problema qualquer, sendo que agora, sem apoio de familiares que o aviam avisado do perigo de andar com mulheres muito mais velhas, dona Joana resolvera, sem que isso constituísse qualquer espécie de obrigação, ampará-lo enquanto procurava se organizar.
Mas o tal dia da organização nunca chegava que o jovem passou a sentir-se o estorvo que dona Joana incansavelmente jurava que ele não constituía. “É hoje. De hoje não passa”, dizia o jovem logo depois de instalar-se poltrona que fica ao lado da máquina de coser. Dona Joana, sem tirar os olhos da máquina de coser, respondia com um grunhido. Mas o jovem, desconfiando que a fria reacção da mulher significasse impaciência para ouvir as únicas frases que dizia com algum animo, insistia sem o entusiasmo inicial: “É mesmo hoje. Nunca tive tanta certeza”. E dona Joana, que não era insensível e nem queria parecê-lo, desta vez olhava para o marido embaraçado e forçava um sorriso (o mesmo com que recebia todos seus clientes).
Passaram assim o seu tempo até a manhã em que o jovem não se dirigiu a varanda da sua casa decadente. Dona Joana não o viu na poltrona encardida e cheia de remendos que ficava ao lado da sua máquina de coser, de onde o homem esperava o tal dia. Foi vê-lo no quarto, embora não achasse aquele motivo suficientemente forte para faze-la levantar da máquina de coser.
— O que se passa? — perguntou com uma preocupação sincera.
— É hoje! Finalmente chegou o dia, querida — Respondeu Pedro com satisfação e alívio visíveis.
— Hoje? — espantou-se dona Joana — ainda ontem, o médico me disse que esperaríamos mais alguns meses. Mas… Ok. Volto já. Deixa-me só concluir as encomendas — e voltou ao seu trabalho.
No dia seguinte ninguém a viu na varanda.
Quando o cheiro que provinha da casa sombria tornou-se verdadeiramente insuportável, o bairro invadiu a casa. Encontraram o jovem, a dona Joana não.

qua, 11/11/2009 - 10:07
Realmente um texto surpreendente... Uma leitura prazerosa... Parabéns!
seg, 26/10/2009 - 13:04
Belo Texto! Suspense puro. Daqueles que prende o leitor.
Parabéns!!!
Apareça!