Hoje cedo
sem motivo
ou aparente razão
abriram-se
as portas
Hoje cedo
sem motivo
ou aparente razão
abriram-se
as portas
e as comportas
bem fechadas
da recordação.
Jatos d’água, incontroláveis,
escorreram imagens
atropelando imagens:
imagens de bicho
imagens de gente
imagens de coisas,
em ritmo urgente.
De repente,
sem aviso prévio
ou evidência de chegada,
sem bater na porta
ou acionar a cigarra,
simpático e foveiro,
meio de mansinho,
insinuou-se um focinho.
Da memória
fecharam-se as portas,
cerraram-se as comportas.
E lá ficou o focinho
me olhando compridinho,
obrigando-me a empurrar,
da memória, sem cautela,
a infância e dentro dela
como por efeito dominó,
a casa de minha avó.
Era o Sassarico,
um cãozinho basset
de rico pelo foveiro
que enfeitou, lampeiro,
minha infância inteira.
Mas, de repente,
sem aviso, como veio,
vi ir-se mais uma vez,
num passo ligeiro,
o pelo foveiro.
Abriu ao contrário
portas e comportas.
Saiu como saem
as pessoas queridas,
deixando no rastro
nacos de despedida.
Fecharam-se da memória,
mais uma vez,
portas e comportas
deixando-me mergulhada...
Não, na tristeza não...
não na melancolia,
mas na doce essência
da recordação.
