Por Maria de Fátima Barreto Michels

Cadeias de verdade prenderam Oscar Wilde. Cadeias invisíveis algemaram no preconceito João da Cruz e Sousa. Cadeias marítimas, ilhadas em constantes cabalas de serpentes, Cadeias cercadas por suásticas, Aquelas que se transformaram em filmes Carandiru. Ou em porões de tortura, nos anos plúmbeos. As que matam ideais, amordaçam soluços, rasgam almas E todas as cadeias que livram a sociedade de terríveis assassinos. De qualquer forma que existam, as cadeias são iguais: APRISIONAM! Achei a palavra: APRISIONADA! Bem no começo, pensei que era eu a poderosa! Que viagem... Sentia-me guardiã das sete chaves. Qual nada! Submissa, refém das CADEIAS DA PAIXÃO, Acorrentada. Fera. Onça? Cadela? Leoa? Com a barriga costurada, grávida de pedras, loba má, desmascarada! Assim à tua mercê, só me resta esperar. Quem sabe, um dia, leias a estória de um beijo, mágico, libertador. Quem sabe teu beijo seja o contrário, o ósculo de misericórdia, Que vai entregar-me aos algozes. Não rejeito o cálice e num gólgota não me oponho a catarse surreal. Um salvador. Dalí, de preferência. Meu último desejo? Que seja um beijo. O teu! Um beijo exigente que me machuque a boca e cause apnéia. Depois, precisaria de mais alguns, esses outros, bem suaves, Beijos que curem eventuais naturais hematomas, diminuam galos e aumentem cristas! Beijos tão delicados que aliviem as dores Na epiderme em seu limite eclodindo botões, Casas e plissados das nossas vestes de carne, Do couro que recobre nossas glândulas, tripas, meu coração. Depois, arrasta-me na aridez do chão. Leva-me em sursis para tua caverna. Vigia-me. Insanas fêmeas saciadas matam. Não te distraias! Por fim, quando exaurida, eu desistir, arrasta-me! Tal qual guerreira, vítima de paixão garibaldina, foi arrastada. Anita! Aninha! Aninha!

“Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?” (In: EU FIZ UM POEMA – Mário Quintana)

Publicado na revista Balaio das Letras - Julho 2008 Ed. nº 3