Não conheço a Minnie pessoalmente. Só a conheço de ouvir falar, pela boca do meu professor de Pilates, noivo de sua dona. Não, a Minie não é um camundongo nem é um hamster – não é um mouse animal, muito menos aquele dispositivo periférico de apontamento, que controla a posição de um cursor na tela e que conta com um ou mais botões, usado para indicar e selecionar opções, ícones e outros elementos de interface, no conceito do Mestre Aurélio. A Minie é uma cadelinha daschhound, aquela cujo corpo parece uma linguiça, sabe?
O nome Minnie deve ter sido uma homenagem a Walter Disney, ou à própria personagem, a Minnie Mouse, namorada do Mickey Mouse, não sei. Mas a Minnie Dog, segundo meu professor de Pilates, era uma cadelinha mal-educada, irascível e teimosa. Não gostava de carinho nem se aproximava das pessoas ou dos outros animais, nem mesmo dos de sua raça. Já tinha três anos e ainda não cruzara, por total impossibilidade de aceitar um companheiro. Bem que já haviam tentado, mas a Minnie, com sua antipatia, afastava todos os pretendentes.
Um dia, a cadelinha ganhou de presente um bonequinho de pelúcia. Foi amor à primeira vista – entenda-se, amor maternal. Pois não é que o instinto de mãe da Minnie despertou com toda força, e ela nunca mais se afastou daquele filho postiço! Defendia-o com unhas e dentes. E ninguém, nem gente nem bicho, se atrevesse a aproximar-se quando ela estava com ele. Deitava-o junto dela e encostava-o nas tetas, como se o estivesse amamentando.
Um belo dia, sua dona achou-a muito gordinha e a pôs no braço. A bichinha estava mesmo pesada – e a dona se lembrou de já haver notado que, ultimamente, ela comia mais que de costume. Observou-a melhor e concluiu que sua barriguinha crescera. Examinou suas tetas, que gotejaram leite. Alguém sugeriu: A Minnie está grávida! Mas de quem, se ela não cruzara. Não saíra de casa nem recebera visita masculina! Então, está doente, pensaram todos, e a dona resolveu levá-la ao veterinário.
Depois do exame, o doutor disse que realmente ela parecia grávida. E fez uma ultrassonografia. Qual não foi sua surpresa quando observou que não havia nada em seu útero. Pronto, diagnosticou: A Minnie está com gravidez psicológica! Os dois – noivo e noiva, a dona da Minnie – olharam-se estarrecidos e não disseram nada. Claro que já tinham ouvido falar naquele fenômeno, mas com mulheres, nunca com animais. Como um animal pode ter uma gravidez psicológica?
O veterinário tentou explicar:
- A gravidez psicológica, também conhecida como pseudogestação ou pseudociese, é um transtorno emocional cujas características são o aumento do volume do abdômen, a amenorréia e outros sintomas que sugerem uma gravidez normal. O ventre crescido explica-se pelo excesso de alimentação. A vontade de ter um filho aumenta os níveis do hormônio prolactina, responsável pela interrupção da menstruação e pela lactação. A Minnie deve ter parado de menstruar e vocês não perceberam. E, como veem, as mamas chegaram a produzir leite. É um processo que apresenta todos os sintomas de uma gravidez normal, menos o bebê. Essa síndrome aparece, com freqüência, em animais de estimação, mas também em mulheres. A primeira atitude a tomar é afastar o bonequinho que ela adotou como filho. E, depois, cuidar em arranjar um cachorro para cruzar com ela.
Os dois saíram do consultório do veterinário meio desconfiados – continuavam a não entender como um transtorno emotivo daquela ordem podia manifestar-se em animais. Mas a vida prosseguiu. Conseguiram um daschhound macho, que a Minnie continuou a rejeitar. Mas, não se sabe como, a esquiva cadelinha acabou emprenhando. As pessoas da casa só tomaram conhecimento do fato na véspera do dia em que pariu. Haviam marcado uma consulta para o dia seguinte, mas, quando amanheceu, lá estava ela com sua ninhada – três belos bebês daschhounds. O quarto nascera morto (pode-se usar essa expressão? meio estranha, não?).
Depois dessa primeira gestação, o temperamento da Minnie mudou muito. Ela está mais afável, mais brincalhona, menos agressiva – com os homens e com os animais. Já engravidou mais duas vezes, o que sugere que também nas relações amorosas a Minnie está mais civilizada.