Como em toda cidade pequena, há vinte ou trinta anos, em Jaguaruana também se guardava luto por dois ou três dias, quando morria alguém de certa projeção social – adiava-se festa e comemoração e qualquer atividade que destoasse dos sentimentos despertados pela morte.
Minha mãe tinha um primo, o Rogério, apaixonado por filme. Não perdia uma única sessão no precário e desconfortável cinema da cidade. Como nossa casa ficava no caminho que ele tinha de percorrer para chegar ao prédio onde as películas eram projetadas (aliás, o prédio ficava vizinho à nossa garagem), ele ia um pouco mais cedo, parava na calçada e ficava conversando com meu pai.
No dia em que o Sr. Armando Saraiva morreu, o Rogério fez o mesmo percurso de sempre para chegar ao cinema. Quando parou lá em casa, meu pai perguntou para onde ele ia. Ele lhe respondeu que ia ao cinema.
- Mas que cinema, rapaz!? Hoje não vai passar filme, não, o Armando Saraiva morreu – informou meu pai.
Com cara de surpresa, perguntou o Rogério:
- Espere! E ele levou a máquina de passar os filmes!?