Morreu hoje o último visitante da ilha. Não o matei. Aliás, pouco tenho a ver com as dezenas de cadáveres espalhados pela ilha, que fizeram com que todos animais preferissem afogar-se no mar tentando alcançar as ilhas vizinhas a presenciar tamanho horror. Quando, na semana passada, vi os homens pela primeira vez, queria conhecê-los e ser um dos seus. Por serem completamente diferentes dos animais da ilha, tive a esperança de que não me hostilizariam. “Será que minha aparência os horrorizará, como acontece com os animais da ilha que preferem morrer a me ver? Será que a minha voz os assustará?”, fiz-me estas questões enquanto eles rondavam o meu escondirijo, o velho armazém situado exactamente no centro da ilha. Eles andavam com muita cautela, quase que não pisando o chão, e parecendo até temer encontrar o que procuravam. Achando aquilo ridículo, tirei os velhos móveis que bloqueiavam a porta e fiquei a espera deles (eu entro e saio pelo tecto quase inexistente). Vendo-me, os dois homens que haviam entrado ficaram paralizados e cairam, como se todos seus orgãos tivessem parado de funcionar em simultâneo. (Será que nem o sorriso que esbocei tornou-me simpático?). Os restantes três homens também morreram. Mas por descuido meu: enquanto eles fugiam por uma picada, eu os seguia pulando de uma árvore para outra; mas me esqueci de me esconder quando, visivelmente exaustos, eles pararam para descançar. O galho em que eu me apoiava partiu-se e eu cai bem ao lado deles. Desta vez, porém, a minha aparência não causou morte imediata: eles passaram pouco menos que quinze segundos a gritar histericamente.

Minutos depois, apareciam dois homens, um atrás do outro. O primeiro, um velho enrugado e curvado ― mais curvado ainda pelo peso da sacola que trazia nas costas ―, parecia calmo, como se tivesse esperado pela morte dos homens que agora tinha pela frente. Sem pousar a sacola, fechou os olhos de medo dos dois mortos, e avançou em direcção ao armazém. O segundo homem, muito jovem, é que parecia assustado, praticamente andando sobre as pegadas do velho. Quando chegaram ao armazém, e vendo o sangue que escorria no degrau da entrada, como se de uma cascata se tratasse, o jovem recusou-se a proseguir, aborrecendo o velho que lhe dirigiu um olhar de clara reprovação. Entraram e, sem que pudessem deixar de pisar no sangue espalhado por todo lado, cobriram aqueles corpos esquartejados ― com sangue ainda escorrendo pelas bocas ― com mortalhas brancas, que afinal era o que carregavam na pesada sacola. (Devo esclarecer que não sou responsável por aquele sangue. Certamente que um parasita qualquer aproveitou-se da minha ausência. Eu sou herbívoro).
Depois de cobrirem os corpos ― o que parecia ser a razão que os levara até ao armazém―, os dois homens afastaram-se. O velho, tranquilo, sempre em frente, e o jovem, em pânico, andando sobre as pegadas do primeiro.

Com mil cuidados, segui os homens até seu acampamento. Ficava na zona ocidental da ilha. Eu nunca frequentara aquela área e nem sabia o que lá havia, mas não me recriminei por isso. A vegetação era quase inexistente, o que, claramente, não me permitiria ocultar-me.

Ao chegar, o velho emitiu um ruído ― provavelmete um grito de guerra―, e cerca de cinquenta homens sairam das três tendas e rodearam o velho. Ouviram algumas palavras, e de súbito, todos sairam correndo para todas direçcões. O velho ficou parado, boquiaberto, parecendo ter mais o que dizer.