A Virada
Enviado por J.Machado, seg, 08/02/2010 - 14:43
Sobre a calçada da porta da sala mirava o horizonte avermelhado. A cantiga das cigarras lhe levava a uma viagem. Pobre Mulher! Que lembrança trazia o ocaso? Que sensação era aquela a fazia suspirar e se perder em pensamentos tão profundos?
A noite caiu, e imóvel permaneceu com as mãos sob o queixo. O primeiro vaga-lume passou em sua frente; atrás dele, outros mais. Nem o brilho da primeira estrela a fez sair daquele estado melancólico. Foi somente o choro do filho mais novo, que estava há horas em companhia do outro brincando na areia do quintal, que fez voltar a si.
Agora sim! Além da pobreza que a consumia, apesar daquela depressão que lhe apareceu sem ser convidada, tirando em certos momentos a sua alegria de viver, ainda tinha a ausência do marido. Apesar dos maus-tratos, era ele quem trabalhava e graças a isso viviam. Não que passassem folgados! Claro que não! Pelo menos fome não passava, nem ela nem as crianças. A partir de agora tudo ia mudar, pensava Marieta olhando os filhos – um ainda de colo e o outro com um pouco mais de dois anos – alheios ao acontecimento.
Já era tardezinha quando Juvenal foi embora. Levou consigo uma mala, um cachorro vira-lata, que ele insistia em dizer que tinha mistura com uma raça boa, e a vontade de nunca mais voltar. Deixou ali sua casa, ou melhor, da sogra. Era dela por direito a casa que ficava às margens da BR-101, com fundos para a lagoa. Deixou também dois filhos. Deixou Marieta, sua esposa, que além do abandono, as contas vencidas, ficou com o olho direito roxo, resultado de mais uma agressão.
A primeira semana sem o marido foi quase insuportável. Tudo acabou. A luz estava vencida, a água também. A depressão não lhe dava trégua. Pensou na mãe, no pai que não conheceu; pensou em como seria a vida sozinha. Perdeu-se em pensamentos longínquos e desgastantes, era como se estivesse ausente daquele ambiente no qual estavam seus filhos. Aliás, foi um deles que a trouxe de volta à realidade ao quebrar um espelho que estava no canto da sala. O barulho dos estilhaços fez Marieta sair rapidamente para ver o que tinha acontecido. Encontrou o mais novo sobre os cacos do espelho. Por sorte não tinha se machucado, mas foi ao ver a sua imagem refletida em um pedaço maior que passou a perceber-se de uma maneira diferente. Marieta viu que a mancha roxa em seu olho já estava quase desaparecendo. Notou que seus olhos verdes ainda tinham algum brilho, que seu corpo continuava jovem. Viu em si alguma sensualidade. Parecia que algo estava acontecendo dentro dela, algo que não sabia explicar. Teve vontade de viver, de sair daquele estado angustiante. Era muito jovem! Apenas vinte e cinco anos. E foi assim que sua vida começou a mudar, a seu modo, da maneira como as oportunidades lhe surgiram.
Rodolfo enche os olhos de lágrimas quando ouve esta história de sua meia-irmã Laura. Sempre achou a mãe corajosa, apesar das críticas recebidas da comunidade de Piedade. Muita gente ameaçou entrar na justiça quando Marieta abriu seu negócio. Jamais se vira pelas redondezas este tipo de atividade. “Isso é o fim do mundo!”, comentavam as pessoas mais idosas e mais conservadoras. Mas era preciso! Tinha dois filhos para criar e não tinha marido, não teve outra opção. Ganhou muitos fregueses e também muito dinheiro, ou pelo menos o suficiente para criar os filhos.
Nem o padre, que fora a sua casa a pedido das beatas conseguiu impedir que Marieta desistisse de seu ofício. Na verdade, ele não se posicionou contra. Havia ido à casa de Marieta somente por obrigação como religioso e por ter que zelar pela moral e pelos bons costumes. No fundo, padre Fernando, que era jovem também, até gostou, apesar de não poder concordar totalmente.
Por fim, chamaram a polícia, tendo em vista o convívio das crianças naquele ambiente que para muitos ficara um tanto despudorado. O delegado fez várias perguntas à Marieta, para entender a razão de sua opção profissional, e ficou espantado com a demanda e a facilidade como dava conta de tudo. Cada vez ficava mais admirado com o trabalho. Também acabou não indiciando Marieta, parecia que o Delegado tinha se apaixonado pelo estilo dela.
A primeira vez foi o próprio primo de Juvenal. Marieta já não agüentava mais. Alguém tinha que começar, e por que não Gilberto? Já era conhecido, já tinha experiência! E assim foi feito. Quando ele chegou, ela já se encontrava no quarto à espera. A luz era fraca, mas como o fotógrafo era jeitoso e criativo fez um fundo improvisado com um lençol branco e Marieta tirou sua primeira foto artística, quase erótica. Não que fosse nua, apenas mostrava as belas silhuetas de seu corpo escultural. Tão logo ficaram prontas e ampliadas, ela mesma ficou encarregada de vendê-las aos motoristas na BR-101. Uns compravam, outros lhe davam cantadas e assim foi se tornando conhecida.
Não levou muito tempo suas fotos ganharam o Brasil. Logo Marieta recebeu proposta para uma campanha publicitária. Acabou fazendo várias delas! Fez viagens e ganhou muito dinheiro. Foi numa dessas viagens que conheceu Arnaldo, seu atual marido. Desse casamento tiveram duas filhas, Laura e Louise. Marieta construiu uma bela casa à beira da lagoa, onde mora com a família. Já não faz mais fotos. O casal abriu um restaurante cuja clientela é basicamente motorista de caminhão. Na parede ainda estão algumas fotos de Marieta.
Hoje, o casal participa da igreja e faz parte da Pastoral da família.
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(Do livro "Graça e desgraça" de J.Machado. Ed e gráfica COPIART)
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