Era meio dia. A cidade inteira modorrava ao sabor do mormaço e do calor. O vento que soprava parecia o vapor expelido por um caldeirão gigante em ebulição. E pior: vinha acompanhado pela poeira, que penetrava nas casas e lançava-se sobre corpos e objetos.
O casarão assobradado de esquina, que ficava na rua principal da cidade, conservava as portas fechadas e as venezianas das janelas abaixadas da metade para baixo. Um silêncio pesado descera sobre a casa. Ali não havia mais criança para perturbar a sesta dos adultos, e a rua, naquele começo de tarde, estava excepcionalmente quieta – nenhum carro, nenhuma moto, nenhum animal ou pessoa quebravam a quietude do horário.
Do outro lado da cidade, em uma das ruas da periferia, acabara de ser cometido um crime passional – o marido, que encontrara a mulher com o amante na própria cama, pusera-o para correr e desfechara, nela, dois tiros à queima-roupa.
Os dois disparos acordaram os vizinhos que sesteavam embalados pelo calor e pela preguiça. Quando o primeiro vizinho saiu à calçada para tentar descobrir a procedência dos tiros, o assassino abriu a porta da casa. Quase esbarra com o vizinho, que se assustou com o seu aspecto transtornado. Naquele momento, outras portas se abriram e mais pessoas enfrentaram o sol, cujas reverberações faziam pensar que as construções e o solo se mexiam.
Quando viu que os vizinhos tinham sido alertados pelos tiros, o homem, de um salto, pulou para o meio da rua e iniciou a corrida que o levaria à rua principal da cidade. Tinha que esconder-se para livrar o flagrante. Não queria nem devia ser preso. Cometera um ato de vindita. Lavara sua honra, e contra isso ninguém poderia dizer nada.
Esbarrou no casarão da esquina, o qual continuava de portas fechadas. Fechadas, sim, mas não trancadas. Foi o que constatou o assassino, quando moveu o trinco de uma das portas, que cedeu. Ele, então, entrou, sem fazer barulho. Aquele casarão tinha um sobrado que, segundo lhe disseram, era pouco usado pela família. Se ele conseguisse subir a escada sem fazer barulho, se ninguém percebesse sua presença, ficaria escondido lá em cima e escaparia à noite.
Subiu a escada íngreme, cujos degraus, de cimento, não fizeram zoada. Mas o piso lá de cima era de tábua. Ele teria que pisar com cuidado, pois qualquer descuido provocaria barulho suficiente para tirar da sesta o mais sonolento dos homens. Como ele pôde constatar, aquela parte do casarão era pouco usada. As janelas estavam fechadas, e ele percebeu que o assoalho tinha uma fina camada de poeira a denunciar que não fora visitado por nenhum pé.
O homem sentou-se em um recanto invisível aos olhos de quem, por acaso, subisse a escada. Estava exausto, molhado de suor. Tirou a camisa e escorou-se na parede. Dali a alguns minutos, adormeceu. Acordou com o movimento do térreo. A família toda estava de pé e já tomara conhecimento do ocorrido. O dono da casa – o Prefeito da cidade – trocou-se e foi para a prefeitura – queria falar com o delegado para saber os pormenores do crime.
Um crime... um crime naquela cidade era algo incomum. Ali só se morria por morte morrida. Quase nunca por morte matada. A população estava excitada. Muita gente nas calçadas, conversando e dando palpites: - O criminoso ainda devia estar na cidade. Escondido em algum lugar. - Não, àquela altura já devia estar longe. - Talvez algum amigo o tenha ajudado a fugir. - Talvez tenha ido esconder-se na casa do pai, em um dos distritos da cidade.
No alto do sobrado, o assassino decidia o que fazer. Vira uma janelinha cujo parapeito era rente com o telhado da casa vizinha. Fugir por ali seria moleza. Era ter paciência e esperar a noite cair e a cidade recolher-se. Nada de afobação, para não pôr tudo a perder.
Percebeu quando o Prefeito chegou à tardinha, e ouviu quando ele relatou para a mulher os boatos que corriam na cidade. Era opinião unânime que o homem não estava na cidade. O delegado já fora até a casa do pai dele. O velho passara mal quando soubera da sandice do filho. O delegado suspendera a busca. Na manhã seguinte, a retomaria, embora achasse ser tempo perdido.
O homem sentiu fome. Lembrou-se de que tinha uma barra de chocolate no bolso da calça. Comprara para a filha, mas não chegara a vê-la. Comeu o chocolate e sentiu sede. Precisava controlar-se. Ali em cima não tinha como arranjar água. Nem banheiro havia. Deitou-se no chão e adormeceu. Quando acordou, percebeu já passar da meia noite. A cidade estava em silêncio. Só se ouvia o barulho do vento, que vinha das bandas do mar e refrescava a cidade. O Aracati! Chegava mais ou menos às três horas da tarde, trazendo alívio à população. Levantou-se, vestiu a camisa e abriu, com muito cuidado, a janelinha. Sem nenhuma dificuldade, passou para o telhado vizinho, do qual desceu umas dez casas adiante, pulando para a outra rua. Ninguém nas calçadas. Tomou o rumo da CE, mas não subiu para a estrada. Foi caminhando pelo meio do mato, até o entroncamento com a BR, onde pegou uma carona. Nem mesmo ele sabia aonde iria dar com os costados.
Pela manhã, a dona da casa ouviu uma pancada no alto do sobrado. Subiu e fechou a janelinha. Já dissera que não se devia deixar aquela janela aberta. Era um perigo. Algum malfeitor poderia, caminhando pelos telhados, penetrar no sobrado. Iria mandar botar nela uma grade de ferro, antes que acontecesse algo assim.
Fugindo pela janela
Enviado por Vicência Jaguaribe, dom, 07/02/2010 - 17:42

sab, 20/02/2010 - 12:43
Como sempre a autora consegue nos levar pelo texto com a sensação da cena vivida. Muito bom!! E a vida não tão mais pacata daquela cidadezinha continua.
qua, 10/02/2010 - 06:58
Bom dia:
Parabéns pelo texto. Parabéns a vocês pelo blog. Gosto muito dos textos do Marcelo Allgayer Canto.
Um abraço, :)
Suziley Silva.
http://arslitterayelizus.blogspot.com
ter, 09/02/2010 - 15:05
"Fugindo pela janela" destaca-se pela descrição minuciosa do ambiente, pela suspense da narração,pelo fio condutor do enredo.O leitor é levado pela mão da autora para acompanhar a cena,passo a passo, até o desfecho em que nada acontece de espetacular e surpreendente,para que a vida continue como dantes sem quebrar por muito tempo a quietude da cidadezinha interiorana.
sab, 13/02/2010 - 19:18
Vicência, segui os passos do personagem, senti medo, sede e fome. A cidade se comoveu, o assassino saiu ileso e a vida continuou. Menos para a mulher. Isso acontece todos os dias, a violência contra a mulher e a impunidade. O interessante é que o suspense acontece numa casa cujos donos não têm a menor ideia do que ocorre sobre suas cabeças. Muito bom.
Lourdinha Leite Barbosa