Para a Clara, minha sobrinha e afilhada.
A menina, minha sobrinha, era sexdigitária, isto é, nascera com seis dedos em um dos pés – mais especificamente no pé direito. Primeira indagação: a quem saíra aquela garota. Uma prima em segundo grau lembrou-se: sua avó, tia-bisavó do bebê, tinha seis dedos em um dos pés. Segunda indagação: que fazer de uma menina com seis dedos? Operar logo, para livrá-la daquele apêndice indesejável e estranho? O médico desaconselhou. Melhor esperar. Não seria uma cirurgia fácil. O dedo era completo, com todas as articulações.
E a Clara – foi este o nome que lhe deram – cresceu com seis dedos, sem problemas, sem nenhum resquício de vergonha – expunha o dedo, andando descalça e de sandália aberta. Um problema: dificuldade de comprar sapatos. Deveriam ter sido moldados em uma forma mais larga e mais alta. E o do pé esquerdo ficava sempre mais frouxo. E, como o pé não se acomodava dentro dos calçados, a menina passou a sentir dor. Mas, descalça ou de sandália aberta, ela não enfrentava nenhum problema.
Menina esperta e, mais que esperta, travessa, desenrolada e valente, não sofria nenhum tipo de preconceito nem de indiscrição dos colegas. Se, por acaso, isso acontecesse, haveria reação, e, quando ela era provocada, o provocador saísse de perto. A mãe, então, resolveu que só providenciaria a cirurgia do famoso pé, quando ela entrasse na adolescência e tivesse consciência do que ia passar.
Enquanto crescia – o sexto dedo crescendo junto –, a menina brincava. E fazia caminhada, e passeava, e subia morro, e descia dunas, e apostava corrida. E, quando alguém falava em tirar aquele apêndice atrevido, ela reagia:
– Nada disso, deixem meu dedinho no lugar dele.
Em um fim de semana na casa de praia de uma família amiga que tinha três filhos homens mais ou menos da sua idade, a Clara foi brincar de apostar corrida. Dividiu-se a turminha em dois pares. E o par da Clara foi o irmão do meio. Quando o menino teve consciência de que ia apostar corrida com uma sexdigitária, olhou-a resolutamente e soltou:
– Eu mesmo não vou apostar corrida com você, não. Você tem seis dedos, corre demais. Eu nunca vou ganhar.
A menina, em vez de ter raiva, ficar envergonhada ou magoada, torceu-se de tanto rir, rolando na grama. Ela deve ter achado mesmo que aquele sexto dedo poderia dar-lhe certa vantagem na corrida.
Quando entrou o ano em que completaria quinze primaveras, como se dizia antigamente, a menina começou a pensar seriamente em livrar-se daquele dedo inconveniente. Mas não se julgue que ela, mocinha, começara a sentir vergonha daquele anexo sem serventia. Claro que não! Isto é, acho que não. Acho que queria mais era resolver o problema da compra de calçados, que se tornara um desafio. Então, antes de agosto – mês de seu aniversário – o dedo foi competentemente extirpado. Mas eu acredito que, mesmo tendo sua vida facilitada ao livrar-se daquele inoportuno hóspede, a menina, de vez em quando, sentia saudades dele. E, mais do que sentir saudades, ela talvez lamentasse a perda de uma marca que, de certa forma, fazia-a diferente das outras crianças. E, quem sabe, constituísse seu charme.

seg, 08/02/2010 - 07:47
Vicência, você transforma pequenos fatos em grandes histórias.
Sou sua fã desde sempre! E da Clara, a partir de agora...rs
Abraço, Aíla
dom, 07/02/2010 - 22:53
E pensar que todo esse talento ficou reservado por tanto tempo!
dom, 07/02/2010 - 14:24
Cara escritora, muito bem humorada sua crônica. Sua família lhe traz inspiração. Esta união do seu talento que é notável, com as pessoas que você gosta, nos mostra textos belíssimos.
Parabéns!
seg, 08/02/2010 - 19:41
Vicência, lendo sua bela crônica, lembrei-me de Clara, menina atrevida, que não quis ceder a cadeira para a Natália. Você fala do sexto dedo com tanto humor que, ao ler o texto, Clara talvez tenha sentido saudade do tempo em que o dedinha dava-lhe mais velocidade.