O colégio lhe dava náuseas. Dentro daquelas paredes sombrias, ela sentia-se em um planeta desconhecido. Vinda do interior, falava outra língua, comportava-se de maneira diferente. Divergia das outras garotas no gosto e no andar. Era ela uma alienígena naquele viveiro de meninas ricas e pretensiosas, aparadas pelas freiras. Um dia, porém, encontrou algo que lhe daria a sensação de estar em um ambiente amigo. Foi na manhã em que chegou mais cedo e descobriu (viu, não, que ver já devia ter visto antes) um armário comprido e largo, encostado na parede dos fundos da sala. Abriu a porta e o mistério revelou-se a seus olhos maravilhados. Aquele armário estava cheinho de livros que ela ainda não lera. Quando entrou na sala, a professora – a Madre Almeida, ainda se lembra –, surpreendeu-se com seu ar de encantamento. Pôs-lhe a mão no ombro e, pela primeira vez, ouviu-lhe a voz: - Madre, de quem são esses livros? Admirada com a ignorância da menina sobre as coisas do colégio, respondeu com um meio sorriso: - São de vocês. Vocês podem emprestá-los para ler em casa. Quer levar um? Os olhos da menina brilharam, e ela assentiu com a cabeça. Quando segurou o objeto encantado, sentiu uma leve comichão nas mãos, que ganharam vida independente e quiseram, de imediato, passar aquelas páginas que guardavam um mundo mágico. Foi fogo para a menina controlá-las. Em casa, quando se deitou no sofá e começou a ler as primeiras linhas de Os desastres de Sofia, de Madame de Segür, teve uma certeza. Foi aí que achou valer a pena enfrentar aquele colégio odiado, suportar seus professores intoleráveis e aguentar suas alunas riquinhas e orgulhosas.