Pela enésima vez, lá estava eu rua da Concórdia. Esperava que o acaso me deixasse ver Ana. Queria, como se fosse necessário, novos motivos para continuar a pensar só nela; e poder ignorar, com segurança, as críticas de amigos meus que não a consideravam suficientemente bonita para merecer devotamentos...
Indiferente aos olhares de desconfiança dos vizinhos de Ana, subi e desci a rua esburacada; e só regressei a casa quando estava verdadeiramente exausto. Mas naquela noite não procurei compensar-me pelo esforço empreendido (o que consistia basicamente em debruçar-me sobre a imagem mais bonita que meus olhos conseguiam me proporcionar). Não. Passei a noite repreendendo-me pela minha inabalável incapacidade de agir. Até o nome dela eu soubera por acaso. Alguém chamou-lhe atenção dizendo o nome Ana...
As minhas reflexões foram interrompidas quando, de repente, me apercebi que, passados três anos de amor crescente, eu me acostumara a intangibilidade de Ana. Era como se me bastasse o cheiro que eu inalava quando, raramente, nos cruzávamos; como se aquele sorriso fácil houvesse sido esboçado para mim; como se não fosse absoluta a certeza que eu tinha de que esperava, incondicionalmente, por um encontro não marcado. Sim, eu a promovera a uma espécie de deusa. Foi por isso que resolvi fazer apenas o que compete a um súbito dócil: adorar a sua deusa...
